Hora do Som Eterno: A hora do metal nacional na Warfare

Confira a playlist da emissão desta semana.

Somo Eterno: Temos novo nome e nova morada

Webzine e rede social: O culto ao Metal.

Smooth Comforts False: Primeiras Impressões

O Ep "Secret" e o álbum "Metaphortime" colocaram a bitola de expectativas para o segundo álbum dos Thee Orakle muito alta...

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8 de novembro de 2011

O formato documentário chega ao Underground nacional


Dico

Na sua natural subjetividade e senso comum, os ditados populares comprovam facilmente a sabedoria do povo. “Não há fome que não dê em fartura” é a máxima que melhor se aplica ao tema do presente artigo. Durante anos a apatia e o marasmo fizeram sentir-se no meio musical português quanto à realização de documentários sobre a música produzida entre portas. Felizmente, quase de um dia para o outro, ao longo deste ano, alguns insatisfeitos deitaram mãos à obra, resultando na estreia de dois documentários independentes num espaço de escassas semanas. Um terceiro encontra-se em produção.

A primeira estreia nacional aconteceu a 16 de outubro no Teatro do Bairro, no Bairro Alto, em Lisboa, e referiu-se ao documentário Meio Metro de Pedra, produzido e realizado por Eduardo Morais. A obra – que partilha o nome com um programa radiofónico animado pelo cineasta - documenta pela primeira vez “a história da contracultura do rock’n'roll nacional desde o seu surgimento no fim da década de 50 até aos nossos dias”, refere na sinopse. “Na década de 60, inspirados por bandas como os Shadows, Bill Haley ou os Beatles, cerca de 3000 conjuntos de norte a sul de um país sob a alçada de Oliveira Salazar abalaram as editoras inconscientes deste som emergente. Um impulso de espírito ousado que percorreu o psicadelismo dos Jets, o punk dos Aqui D’el Rock, e se estabeleceu em pontos nevrálgicos como Braga, Coimbra ou Barreiro.”

Na obra participam Francisco Dias, vocalista dos Dawnrider e Subcaos, responsável da Blood & Iron Records; e Filipe Mendes, ex-guitarrista dos Psico e Heavy Band, entre outras figuras míticas do Rock nacional. O cartaz das próximas exibições pode ser consultado em http://docmeiometrodepedra.blogspot.com/ (em janeiro de 2012 deverá ocorrer uma nova apresentação na capital, ainda não disponível neste cartaz).

Por outro lado, a estreia nacional do documentário Setúbal tem alma musical - Um retrato sobre a música undergound em Setúbal aconteceu a 26 de outubro no Clube de Cinema de Setúbal, inserida no mês dedicado à Música. Realizado por João Miguel Fernandes, a obra pretende mostrar que “Setúbal é uma das cidades mais importantes a nível nacional no panorama da música underground”. O filme centra-se no percurso das bandas sadinas Blame the Skies, Hills Have Eyes, The Coups e Lydias’s Sleep, inserindo-se as duas primeiras nas sonoridades pesadas. O trailer pode ser visionado em http://www.youtube.com/watch?v=OuMMybLqtBA (na coluna lateral direita do Youtube o utilizador encontra ainda um teaser de cada banda).

Finalmente, para o início de 2012 aguarda-se a estreia do documentário Lions Unleashed – The Movie, que retrata a Lions Unleashed Tour, digressão na qual participaram os nacionais Switchtense, For the Glory, Seven Stitches e Grankapo. Citado por Nuno Costa no site “SounD(/)ZonE” o realizador, Miguel Miranda, afirma que o ‘“objetivo comum” é a “promoção do metal português, dado que “numa altura de crise mundial e falta de oportunidades (…) são os metaleiros que puxam dos galões e metem mãos à obra.”’Miranda já havia realizado, entre outros, os videoclips de «Unbreakable» e «Into the World of Chaos», dos Switchtense.

Estes documentários vêm igualmente desmentir os intelectualóides que diziam não haver mercado nem dimensão quantitativa e qualitativa do Underground nacional que justificasse a realização de trabalhos do género. Eles aí estão e justificam-se! Desejam um copinho de água para vos ajudar a engolir os sapos?

Um histórico muito pobre

Profissionalmente, e no que respeita a trabalhos audiovisuais acerca do Underground luso, apenas existiam reportagens-documentário transmitidas nos canais nacionais. Maioritariamente sensacionalistas e tendenciosas, abordavam o tema de forma negativa, visando meramente denegrir o estilo e os fãs. Passaram na SIC e na TVI (ver “Sons do Extremo, “666, Diabo à Solta ou “Black Metal. Inversamente, a RTP e a SIC Radical realizaram trabalhos válidos, sérios e fundamentados, que beneficiaram a cena, dela transmitindo uma imagem realista sem ocultar factos (ver, por exemplo, http://www.youtube.com/watch?v=44jSsLK11Sk&feature=related).

À parte as reportagens-documentário suprarreferidas, até agora nada mais existia em Portugal do que meia-dúzia de peças experimentais, curtas-metragens amadoras realizadas no âmbito de trabalhos académicos. Aliás, já noutras ocasiões eu havia expressado a minha estupefação pela total ausência de espírito de iniciativa dos agentes nacionais quanto à realização deste género de trabalhos. É pois com inusitada alegria que assisto, finalmente, à evolução do formato documentário centrado no Underground nacional. Alcançou-se desta forma um novo patamar evolutivo, profissional e de ambição.
Os ideólogos de Meio Metro de Pedra, Setúbal tem alma musical - Um retrato sobre a música undergound em Setúbal e Lions Unleashed – The Movie reúnem todas as características de que este formato carecia para fazer evoluir o nosso Underground numa aceção puramente documental: são altamente qualificados e experientes, apresentando uma sólida formação académica e profissional na área do audiovisual.

É nestas pessoas, bem preparadas, que os agentes do Som Eterno português depositam a maior esperança tendo em perspetiva uma divulgação mais ampla e eficaz do Metal luso no estrangeiro. Que sejam muito bem-vindos. Desejo-lhes a melhor sorte e que muitos outros sigam os vosos louváveis exemplos.

Dico

11 de setembro de 2011

Danças extremas


Texto redigido ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico

É todo um original conceito artístico que, apesar de aparentemente novo, comemora uma década já em 2012: espetáculos de Bailado coreografados sobre canções de Metal, numa salutar lógica de abolição de regras e dogmas instituídos entre formas de arte distintas mas complementares em dado contexto. A ideia institucionalizou-se definitivamente com os norte-americanos Laura Kowalewski e Andrew Carpenter (que tive oportunidade de entrevistar há alguns aos para o blogue “Metal Incandescente”), fundadores da companhia nova-iorquina Ballet Deviare em 2003.*

O projeto, sem fins lucrativos, assenta no puro amor às artes e sobrevive corajosa e nem sempre facilmente do apoio de donativos particulares, mecenato e voluntariado, tendo como objetivo primordial expandir as fronteiras do Ballet ao mesmo tempo que legitima o Metal enquanto forma criativa abrangente, passível de cruzamento com outras artes performativas.

A companhia já realizou sete produções baseando as suas coreografias em temas de bandas extremas como Opeth, My Dying Bride, Swallow the Sun, Mara's Torment, Japanische Kampfhörspiele, Celestiial ou Arsis, pertencentes aos universos musicais do Grindcore, Death ou Doom Metal. São essas produções “Lightning the Dark”, “VII (Seven)”, “Forged”, “Memento Mori”, suporte para os Opeth na Town Hall (Nova-iorque), “Sharts” (uma demonstração / clip realizada para o programa da MTV2 com o mesmo nome ) e a mais recente, “Disconsolate”, uma arrojada curta-metragem de dança experimental.

Com este projeto, Kowalewski e Carpenter (codiretores da companhia, sendo a primeira também a coreógrafa de serviço), levaram novos e atípicos públicos aos seus espetáculos. Jovens metaleiros que de outra forma nunca se interessariam por Ballet marcam presença nas atuações; amantes do Ballet atraídos pela originalidade do conceito também não faltam.

Diferentes gerações e estratos socioculturais acorrem às produções do Ballet Deviare, embora, segundo Carpenter, o público conservador seja o mais resistente, “o que se deve, sem dúvida, aos dogmas particularmente austeros e conformistas que regem o universo da dança, em especial o Ballet”. Laura Kowalewski não duvida que “os fãs de Metal são bastante recetivos ao conceito e apoiam-nos. Aliás, sem surpresa, a comunidade metálica foi, de longe, mais recetiva que a do bailado”. De qualquer forma, Kowalewski e Carpenter geraram um fenómeno, permitindo que indivíduos com gostos musicais e artísticos antagónicos partilhassem as mesmas salas de espetáculos.

O êxito da companhia deve-se não só ao arrojo e originalidade do conceito mas também ao trabalho árduo e à intransigente exigência de qualidade musical e artística. Por isso, todos os artistas Ballet Deviare possuem treino clássico. Mas será difícil coreografar espetáculos de dança sobre temas Metal? Não, segundo Kowalewski, para quem este “é um género de música que apresenta características semelhantes às da composição clássica: o fraseado, a melodia, etc.”

Contudo, não é fácil levar a palco as bandas criadoras dos temas que inspiram os responsáveis da companhia Ballet Deviare, embora a produção “Seven (VII)” haja tido a participação ao vivo de Eayal Levi, guitarrista dos Daath; e de James Malone, vocalista e guitarrista dos Arsis, que interpretaram «A Diamond for Disease» sobre uma gravação de bateria.

Em Portugal, também os inevitáveis Moonspell, nas pessoas de Fernando Ribeiro e Pedro paixão criaram música para um projeto análogo, intitulado “Quase”, coreografado por Rui Lopes Graça e estreado pelo Ballet Gulbenkian em janeiro de 2005. Lopes Graça já havia trabalhado com Ribeiro na peça “Antídoto” (derivada do álbum “Antidote, dos Moonspell, e do livro “Antídoto”, de José Luís Peixoto, que acompanhou o disco).

Nenhuma destas produções, baseadas no mais puro profissionalismo, se relaciona com as coreografias azeiteiras e ridículas na sua originalidade forçada e descontextualizada com que algumas bandas de Black / Gothic Metal (principalmente mas não só) resolveram brindar o público a partir do final da primeira metade dos anos 90, apresentando uma ou duas bailarinas em palco, cujas coreografias absurdas destoavam completamente da música, gerando resultados de um mau gosto inenarrável. E se o faziam meramente para atrair mais público ansioso por ver as meninas a abanarem-se, duvido muito que hajam alcançado o objetivo. Custa-me a crer que houvesse fãs suficientemente influenciáveis ao ponto de comprar ingressos para ver as bailarinas e não os grupos.

Já nos anos 00 houve mesmo quem levasse o mau gosto ao extremo, recorrendo a freakshows de bailarinas que, na sua obesidade mórbida, exibiam as mamas descaídas num espetáculo para-grotesco. Mesmo os Destruction, no Wacken 2007, recorreram aos serviços de duas cheerleaders que pretensamente animavam as hostes enquanto o grupo debitava o seu poderoso Thrash. Era mesmo necessário?

Numa linha distinta mas igualmente original, os californianos Flametal, fundados pelo guitarrista Benjamin Woods, praticam uma irresistível fusão de Metal com Flamenco nos dois álbuns já publicados, The Elder e Heavy Mellows. Também entrevistado por mim há alguns anos no âmbito do blogue “Metal Incandescente”, o grupo afirma que mais do que tocar Metal esforça-se por “entreter o público. O Flamenco é mais do que apenas música, é arte, daí a nossa paixão pelo género. As histórias de terror que envolvem a nossa música podem ser retratadas através da dança, sedutora e obscura (…). O que fazemos em palco não é uma peça de teatro ou uma ópera, é um espetáculo de Metal mais extravagente do que é hábito.”

Segundo Woods, “as reações têm sido incrivelmente positivas, na sua esmagadora maioria. Alguns fãs nossos nunca haviam sido expostos ao Metal ou ao Flamenco, portanto alargaram os horizontes. No entanto, recebemos alguns comentários negativos, do género "dança no Metal não lembra a ninguém. Hilariante, não é?”. Com efeito, haverá sempre gente cujos horizontes limitados lhes impossibilitam a descoberta e o usufruto de novas e aprazíveis formas de arte. Mas que essas formas e respetivos criadores / intérpretes se baseiem exclusivamente na pertinência das mesmas para as tornar reais, impregnando-as de um intransigente profissionalismo. De outra forma não valerão a pena, tornando-se peças banais, vazias, brejeiras, sem requinte, à semelhança de alguns exemplos enunciados neste texto. Raramente o caminho mais fácil é o melhor.

Dico

* Já entre 15 de fevereiro e 1 de março do ano anterior 30 bailarinos da Swedish Royal Ballet haviam acompanhado os Entombed na terceira e última parte de cada uma das oito representações do espetáculo “Unreal Estate” no Royal Opera Hall, em Estocolmo, na Suécia, para o qual a banda compôs 45 minutos de música exclusiva. Gravações desses espetáculos resultaram no álbum ao vivo Unreal Estate. No entanto, a verdadeira estreia do espetáculo, coreografado por Bogdan Szyber e Carina Reich, aconteceu a 14 de fevereiro de 2002 no evento de atribuição dos Grammys suecos, com transmissão em direto pela cadeia televisiva local TV4.

29 de dezembro de 2010

António Sérgio - A voz eterna

Dico
Locutor e realizador de rádio, DJ, editor discográfico, produtor, especialista e divulgador musical, António Sérgio marcou para sempre a rádio portuguesa. A sua enorme honestidade, ampla cultura, carisma inigualável, profissionalismo irrepreensível e genuína paixão pela música influenciaram milhares. Eis a minha merecida homenagem ao Mestre pouco tempo após se ter assinalado o primeiro aniversário sobre a sua morte.

Quando me propus redigir este artigo sabia que seria tudo menos fácil, não só pela enorme responsabilidade que constitui escrever sobre tão mítica figura da rádio e da música em Portugal como foi o António Sérgio mas também pela emotividade que semelhante tarefa representa para mim. Nunca se poderá avaliar com exactidão e justiça a verdadeira influência do radialista na formação musical de sucessivas gerações de melómanos ao longo das quatro décadas que dominou o microfone, mas uma coisa é certa: o seu impacto foi monumental!

Por muitos conhecido essencialmente por ter realizado o famoso programa “Som da Frente” (dedicado à New Wave e à Pop) entre 1982 e 1993, António Sérgio constitui no entanto uma referência incontornável para os fãs nacionais de Metal, que durante quase dez anos, entre 1983 e 1993, ouviram religiosamente na Rádio Comercial, aos sábados à tarde entre as 16h e as 18h, as novidades do Som Eterno.

As Sete Vidas do Heavy Metal

Dedicado ao Hard Rock e a todas as variantes do Heavy Metal, o “Lança-chamas” estreou-se a 23 de Outubro de 1983, apenas com uma hora de emissão. Contudo, o impressionante carisma de Sérgio, o seu magnífico “vozeirão”, a escassez de programas do género, a inusitada coragem de fazer um programa deste cariz a nível nacional e a falta de informação (na época não existia Internet nem revistas da especialidade) asseguraram êxito imediato ao projecto que, a pedido dos fãs, rapidamente se estendeu a duas horas de emissão.

Fui um dos muitos milhares de bafejados pela sorte de “frequentar” a “universidade de Heavy Metal” que era o “Lança-Chamas”, tendo absorvido semanalmente cada minuto da “aula” do “professor António Sérgio” com avidez e paixão. Sim, o “Lança-Chamas” era uma verdadeira escola no sentido mais amplo do termo, tal a quantidade e qualidade musical e informativa que nele se descobria.

Aliás, o trabalho de António Sérgio influenciaria não só a formação de um apreciável número de bandas, fanzines, clubes de fãs e outros projectos relacionados, mas também a criação de inúmeros programas de autor em pleno boom das rádios pirata e locais (escola de várias referências actuais do éter nacional), impulsionando directamente e de forma significativa o desenvolvimento do Underground metálico português dos anos 80. [Em 1986, profundamente influenciado pelo António Sérgio e o seu “Lança-chamas”, este vosso escriba chegou a prestar provas, sem êxito, numa rádio pirata sedeada na cave do Centro Comercial do Lumiar, em Lisboa, com um projecto de programa de autor intitulado “O Som do Metal”.]

Ouvir o “Lança-Chamas” aos sábados à tarde entre as 16h e as 18h era um ritual, um acto religioso. A partir das 15h55 preparavam-se as cassetes, preferencialmente de crómio, para assegurar a melhor qualidade sonora possível (havia que reservar uma suplente para que não se perdesse um só momento do programa).

Às 15h59 já a cassete aguardava no deck da aparelhagem o início do “Lança-Chamas”. Os botões “play”, “rec” e “pause” ficavam pressionados, aguardando os primeiros acordes do fabuloso «Eruption» (muitos anos mais tarde substituído por «Heading Out the Higway», dos Judas Priest), que em 1978 lançara os Van Halen e especialmente o guitarrista Eddie para a estratosfera da fama. Não havia melhor tema para genérico do programa. Ouvir aquele 1’42” de puro virtuosismo arrepiava-nos da cabeça ao pés (ainda hoje o faz), mergulhando-nos bem fundo no maravilhoso universo do Heavy Metal. Findo o genérico soltava-se o botão “pause” e entrávamos noutra dimensão, sob o mote “As Sete Vidas do Heavy Metal”.

Gravávamos todo o programa e ouvíamo-lo vezes sem conta. Obviamente reproduzíamo-lo para os amigos, que repetiam o ritual ad aeternum, impulsionando o fenómeno do tape-tradding em Portugal a uma velocidade vertiginosa. A voz do Sérgio também era gravada. Fazê-lo não era perder espaço na cassete, era ganhar em paixão. Cada sílaba, cada frase era voluptuosamente assimilada. Ouvir com atenção aquela voz quase hipnótica, potentíssima, “quente”, “cheia” e envolvente transmitia-nos uma sensação de poder, de excitação, fazendo-nos sonhar em possuir semelhante dom.

Era no “Lança-Chamas” que ouvíamos em primeira mão os mais recentes álbuns das maiores bandas internacionais, que descobríamos novos e excitantes subgéneros, que ouvíamos os grupos emergentes, que ficávamos a par das principais novidades do Som Eterno ou que tínhamos conhecimento da visita a Portugal da nossa banda favorita, numa altura em que havia um espectáculo de grupos estrangeiros a cada dois anos, anualmente ou, com muita sorte, de seis em seis meses.

Nessa época dourada que foram os anos 80 o António Sérgio deu-nos a conhecer centenas ou milhares de bandas cujos discos eram ansiosamente procurados nas discotecas nacionais de referência, com destaque em Lisboa para a Motor (mais tarde Bimotor), situada nos Restauradores e considerada a catedral discográfica do Som Eterno na altura. Aí se adquiriam bilhetes para concertos, LP’s, EP’s e singles, cassetes, demo-tapes, fanzines e newsletters, estando os projectos nacionais sempre devidamente representados, numa era em que os discos do género Made in Portugal se resumiam aos dedos de uma mão.

Aliás, o “Lança-Chamas” não esquecia o Underground. Com o ingresso de Paulo “Scorp” Fernandes (vocalista dos Cruise, que chegaram a gravar um single e a abrir o concerto de Gary Moore a 13 de Maio de 1987 no Dramático de Cascais) e Gustavo Vidal (presidente do clube de fãs Heavy Metal Zombies Paranoid e responsável da fanzine “Renascimento do Metal”) na equipa do programa (António Freitas também havia de por lá passar, como assistente do Mestre no final dos anos 80), os headbangers passaram a conhecer as mais recentes bandas e fanzines portuguesas, os clubes de fãs, os concertos ou as matinés de domingo no mítico Rock Rendez Vous (em que havia concertos nalgumas semanas e passagem de música com transmissão de clips da MTV noutras).

Foi através do “Lança-Chamas” que inúmeros fãs conheceram os Alkateya, Tarântula, Ramp, Vasco da Gama, Cruise, Xeque-mate, Tao, Satan’s Saints, Thormentor, The Coven, Ramp, Braindead, Massacre, V12, Sepulcro, Jarojoupe, Black Cross, Enforce e tantos outros grupos nacionais que de uma forma ou de outra estiveram na génese do Metal português. Foi igualmente no programa que os meus dois primeiros grupos – os Paranóia e os Dinosaur – se estrearam no éter, daí o “Lança-Chamas” ser triplamente importante para mim, bem como para centenas de outros músicos nacionais.
Contudo, apesar do enorme êxito alcançado, nos últimos anos de emissão a direcção da Rádio Comercial tenta por diversas vezes encerrar o programa. Indignados, os milhares de fãs respondiam massivamente com cartas de protesto, mantendo o “Lança-chamas” no ar. Até que, no início dos anos 90, a privatização da emissora acaba mesmo por ditar o fim do programa, que passa a ser realizado na Rádio Energia por um breve período até encerrar definitivamente, deixando uma lacuna impossível de preencher no meio radiofónico metálico em Portugal.

Infelizmente, nunca poderemos agradecer o suficiente ao António Sérgio por ter enriquecido as nossas vidas de uma forma tão intensa, apaixonada, marcante e definitiva. Mas continuaremos, para todo o sempre, a ouvir ecoar a sua voz nas nossas mentes e corações. Esta é a minha sentida maneira de o fazer. Muito obrigado e até sempre, Amigo!

PS:

A 14 de Janeiro realiza-se no Cinema São Jorge, em Lisboa, um concerto de homenagem a António Sérgio. Notícia alargada em Diario Digital

Dico

Biografia de um ícone

António Sérgio © Rita Carmo


António Sérgio Correia Ferrão nasce na cidade angolana de Benguela a 14 de janeiro de 1950. Os pais, locutores do Rádio Clube do Bié, incutem-lhe desde muito cedo a cultura radiofónica. Em 1968, já em Lisboa, António Sérgio estreia-se na Rádio Renascença. Coapresenta com a mãe os programas “Encontro para Dois” e o mítico “Quando o Telefone Toca”.
Rebelde e inconformista, vê nos programas de autor a mais eficaz forma de expressão e divulgação da cultura musical que na época escapava aos portugueses. Em 1976 cria o programa “Rotação”, que apresenta até 1979, sendo pioneiro na divulgação em Portugal de inúmeros grupos e artistas a solo internacionais de primeira linha. Torna-se conhecido também pela sua voz forte, potente, bem colocada e aprazível.

Sempre na vanguarda do que de melhor e mais recente se fazia no Rock, na New Wave, na Pop, no Punk ou no Heavy Metal mundiais, a partir de 1980 António Sérgio realiza e apresenta na RDP - Rádio Comercial os programas “Rolls Rock”, entre 1980 e 1982; “Som da Frente”, de 1982 a 1993; “Louras, Ruivas e Morenas”, em 1984; e “Lança-Chamas”, na década compreendida entre 1983 e 1993; programa que a emissora tenta encerrar por diversas vezes. Consegue-o em 1993, levando Sérgio o “Lança-chamas” para a Rádio Energia, onde termina definitivamente pouco depois.

Entre 1993 e 1997 António Sérgio dá voz ao programa de Blues “Grande Delta” na XFM. O fim da estação dita o regresso à Comercial, onde apresenta “As Horas”. Em simultâneo, na Best Rock FM faz” A Hora do Lobo”. A 14 de setembro de 2007 a nova gerência da Rádio Comercial dispensa o radialista, sob efusivo protesto dos ouvintes. Alegadamente, o seu programa de autor não se enquadrava na nova grelha, estruturada em playlists. O locutor ingressa então na Rádio Radar para realizar e apresentar “Viriato 25” e a rubrica “SOS Radar” até à sua morte, a 1 de novembro de 2009, de ataque cardíaco.
Em vida, António Sérgio viu a sua obra ser reconhecida publicamente variadas vezes e de formas diferentes mas não com tanta regularidade como seria justo. Em 1999 recebe um Globo de Ouro na categoria de rádio e em 2008, na comemoração de quatro décadas de trabalho dedicadas em exclusivo à música, é merecidamente considerado pela revista “Blitz” uma das 50 personalidades mais importantes da Música Portuguesa.

Durante o seu trajeto profissional ímpar António Sérgio trabalha ainda nas editoras Nébula, Nova (onde coproduz o álbum Música Moderna, dos Corpo Diplomático), Rossil (em que funda e dirige a subsidiária Rotação, lançando os Xutos & Pontapés com o single Sémen) e Música Alternativa. A edição era, com efeito, uma das suas paixões.

Enquanto jornalista escreve nos jornais “Blitz” (onde dirige o suplemento mensal “Manifesto”) e “Independente”. Em 2006 passa a fazer voz-off na SIC. É justamente considerado a nível nacional e internacional um dos mais influentes divulgadores de música Rock, Pop e Alternativa. Apesar de extremamente lisonjeiro, o epíteto de “John Peel português”, que muitos lhe atribuem, revela-se bastante redutor e limitador da sua originalidade e trabalho realizado.


Dico

13 de dezembro de 2010

Os Animais

Dico

Para desgosto da minha família, no período final da segunda metade dos anos 80, entre 1987 e 1989, à semelhança de qualquer outro headbanger típico, eu trajava diariamente com calças justas de ganga elástica, t-shrits das minhas bandas favoritas e blusões de ganga (nunca cheguei a adquirir um de cabedal) ornamentados com dorsais, patches e crachás de grupos. Na altura, encontrava-me ainda a deixar crescer o cabelo. Seguindo a tendência da época, também não dispensava os ténis-bota (preferencialmente da Reebok, passo a publicidade), as pulseiras e cintos de bicos, anéis com caveiras e uma pesada corrente adquirida na loja de ferragens mais próxima, que pendia das calças em forma de “u”.

Este meu visual garantia-me sempre lugar disponível nos transportes públicos. Não só me sentava à primeira como o banco ao lado também ficava vago (não fosse eu estripar quem lá “ousasse” sentar-se). Se fosse uma mulher grávida ou um idoso certamente não teria tanta sorte. Onde quer que eu fosse, os transeuntes olhavam para mim (e para a generalidade dos headbangers) com um misto de terror, choque e repugnância. Sempre que recordo estes episódios vêem-me à memória os versos “quando ando pela rua toda a gente olha para mim, parece que me querem comer, e esta merda nunca mais tem fim” do clássico «Animais», dos Censurados.

O visual que adoptei assegurava-me, aliás (como a inúmeros outros fãs de Metal), o epíteto de “drogado” e “ladrão”. Certo dia fui mesmo acusado por um homem que viajava de pé ao meu lado num autocarro cheio de lhe ter roubado a carteira. Nada me enraivece mais do que a injustiça e a calúnia, pois além de sempre ter sido um pacato cidadão, orgulho-me da minha honestidade intransigente.

Na medida em que a minha forma de dizer “vão-se todos foder, seus anormais infelizes” aos preconceituosos e retrógrados com quem tenho a infelicidade de me cruzar sempre foi - e ainda é – chocá-los o mais possível, obrigando-os a enfrentar o que mais receiam ou detestam, acrescentei à minha indumentária uma cruz invertida, passando também a fazer-me acompanhar na rua por um leitor de cassetes que, alto e bom som, debitava estratégica e provocatoriamente músicas de bandas extremas. Recordo-me que os Blessed Death eram um dos meus grupos eleitos para o efeito, dada a indescritível gritaria vociferada pelo frontman.

De forma natural, no início dos anos 90 abandonei os ornamentos, passando a adoptar um visual minimalista: cabelo comprido, t-shirt ou sweat shirt pretas, calças justas de ganga elástica preta e os inevitáveis ténis-bota. Ainda assim, mantive o meu “lugar reservado” nos transportes públicos. Ao cruzarem-se comigo na rua, as pessoas preservavam a expressão de terror e repúdio que tão exemplarmente denunciava a sua ilimitada estupidez. Agora, devido à indumentária e aos meus longos cabelos, eram os epítetos de “paneleiro” e “drogado” que me atribuíam (sempre nas minhas costas, obviamente). Ora, nunca tendo eu duvidado da minha virilidade ou sequer fumado um charro (sim, é verdade), decidi ignorar esses “mimos”. Aos 21 anos fui obrigado a cortar o cabelo para arranjar emprego. Mais tarde, deixei-o crescer novamente e ainda mais.

Hoje, do alto meus 40 anos e da indumentária formal que envergo diariamente, continuo a ser descriminado pelo visual de outrora. Há tempos, em conversa sobre televisão com uma nova pessoa do meu círculo de conhecimentos, falei-lhe do meu gosto pelos programas “Miami Ink” e “LA Ink”, especializados em tatuagens, que me esforço por nunca perder, embora nunca haja tatuado o corpo. Horrorizada, a mulher, de apenas 32 anos (sim, não falo de uma velha retrógrada), expressou uma repugnância tal para com esta forma de arte e para com todos os que a ostentam no corpo que eu não podia acreditar. Há muito que não via uma demonstração de intolerância e discriminação social tão veemente.

Na sequência do tema, informei-a que já havia usado cabelo comprido e trajado a roupa típica do headbanger médio dos anos 80. Percebi o choque na expressão da mulher, que nem se esforçou por disfarçar. Perguntou-me então: “Como é possível? Ninguém diria. Vestes-te tão bem. Pareces tão pacato”.

No dia seguinte mostrei-lhe propositadamente várias fotos minhas dessas épocas (sendo uma delas a que ilustra este texto). Ansiava confrontá-la com a sua própria estupidez e preconceito. O choque foi ainda maior.

Incrédula, de olhos esbugalhados, era quase como se a mulher tivesse à frente imagens de cadáveres ou algo parecido. “Que horror” e “não é possível que já tenhas sido assim”. Falava como se de um abjecto serial killer se tratasse. E estas foram apenas algumas das frases que lhe saíram pela boca fora. Enquanto outras pessoas comentavam cordialmente o meu antigo visual, a outra mergulhava num mar de preconceito. Acabou por ser humilhada por mim e pelos restantes presentes, remetendo-se por fim ao silêncio. Que outra solução tinha?

Dico

4 de outubro de 2010

Dico - Metal Sem Alma


As últimas bandas que, por insuspeito mérito, me deixaram imediatamente rendido à sua inegável qualidade e originalidade foram os nacionais Assacínicos e os Hyubris, há já alguns anos. Desde então (e muito antes disso também) que, tanto a nível nacional como internacional, não surgiu um único novo grupo que me tenha enchido as medidas.

É dramático ouvir bandas cujos músicos são tecnicamente perfeitos (ou quase), autores de registos áudio imaculados em termos de composição, sonoros e de produção mas incapazes de transmitir quaisquer emoções, mesmo ao vivo. É a técnica pela técnica, a polidez e o perfeccionismo exacerbados, em detrimento de uma sonoridade mais orgânica, espontânea, genuína e natural, que traduza o fluir da música a partir das entranhas.

Mesmo nos CD’s-compilação de revistas conceituadas como a “Terrorizer”, para dar um mero exemplo, a selecção de bandas é vergonhosa em 90% dos casos, reflectindo um cenário geral desolador, em que a esmagadora maioria dos grupos se limita a copiar-se mutuamente sem qualquer pudor, tendo já antes clonado os clássicos até à exaustão. Soam todos ao mesmo. Ouvimos uma dessas bandas e podemos considerar que ouvimos todas dentro do respectivo subgénero. Nada se perde.

Sem querer de forma alguma assumir o papel de saudosista retrógrado (até porque o não sou, ao contrário do que alguns julgarão), verifico que, à parte raras excepções, apenas os clássicos mantêm a capacidade de nos fazer ficar com “pele de galinha”. O contributo da grande maioria das bandas mais recentes (neste lote incluo grupos com até dez anos ou mais de formação) resume-se, tristemente, a dar ao público mais do mesmo, produzindo música chata, previsível e sem alma ou pingo de emoção. Nada justifica a sua existência, que poderia traduzir-se verbalmente num hipotético novo subgénero de música pesada, infelizmente transversal a todas as subáreas do Som Eterno: boring soulless metal. É pena que tenhamos chegado até aqui.

Dico

Dico inicia com este texto uma série de artigos em Crónicas do Som Eterno.